TRABALHEI VENDENDO ROUPAS QUE NEM ME SERVIAM: Minha primeira história com a Moda

Meu primeiro emprego relacionado a Moda foi numa loja de roupas. Obrigatoriamente eu tinha que usar as roupas de lá como uniforme. Tínhamos uma “clothing allowance” (mesada de roupa) de um certo valor que nos permitia a cada 6 meses renovar as peças, pra estar sempre de acordo com as tendências e lançamentos. Essa mesada em roupas era retirada no seu primeiro dia de trabalho, porque em nenhum momento você poderia estar sem as roupas da marca. Assim que fui informado dessa política, fiquei apavorado. Pensei: “fod**, nada vai me servir.” Dito e feito.

Nessa época eu tinha muita dificuldade em achar roupas. Eu vestia tamanho 50/52 e no máximo uma 48 da bem grande, o que era raro de achar. Uma vez comprei uma calça 54 mas me recusei a usá-la de vergonha. Sempre gostei de moda e de me vestir bem e ter um estilo, mas era quase impossível achar roupas legais que servissem a esse gordo querendo ser moderno.


Já muito nervoso, no meu primeiro dia entrei na loja e me apresentei a todos. Uma das meninas (alo Aninha!) começou a me assessorar na escolha do meu uniforme.

Eu estava desesperado. Eu conseguia lembrar de todas as vezes que entrei nos provadores das “lojas-legais” e saí com um sorriso amarelo, segurando o choro, dizendo que “não tinha gostado!” pra omitir o fato que aquela calça não passou dos meus joelhos. As vezes que briguei com a minha mãe porque não queria ir na “Loja de Gordo” mas era obrigado porque só lá tinha roupa pra mim.

Nesse momento eu revivia todos meus maiores medos com relação a roupa, e o pior: essas roupas agora seriam meu trabalho!

- Será que vai ter alguma coisa que me serve? Avisei já nervoso.

- Claro! Com certeza - ela tentou me confortar, sorrindo amarelo.

Me mostrou as calças skinny, super modernas, as camisetinhas estampadas, uau os meninos todos amam, essa camisa tem um caimento incrível, jogando esse cardigan em cima vai ficar uma graça. Eu ainda não sabia que aquelas roupas eram pra meninos magros e sexy, como as campanhas da marca pregavam.




A verdade é que NADA. ME. SERVIU.

De uma loja inteira de dois andares abarrotada de roupas, nada me servia. Nada. Eu provei as calças com stretch, as calças de algodão. Provei as bermudas, os shorts de praia. Camisas agarradas estourando no umbigo; as calças não passavam do joelho; NADA PARECIA ME SERVIR.

Já querendo chorar e cogitando a minha demissão no primeiro dia por motivos de obesidade, ela lembrou de uma bermuda antiga que talvez servisse. “Os meninos gordinhos sempre usam essa!”. Serviu, finalmente. encontrei UMA PEÇA QUE ENTROU E FECHOU. Não tô dizendo que estava confortável, tô dizendo que ela entrou e fechou. Parecia que eu tinha acabado de vencer uma maratona. Mesmo porque provar várias peças que não te servem realmente poderia ser um esporte olímpico - e eu seria o maior medalhista!

Aliviado porém completamente envergonhado, aceitei as minhas novas roupas que a partir daquele momento seriam meu uniforme diário. Com aquelas roupas apertadas eu iria trabalhar em pé por 8 horas, vendendo outras roupas para as pessoas magras que entravam nelas. Pronto! Sou um dos modernos.

Eu sabia que isso iria acontecer. Não era surpresa nenhuma. Sempre foi assim! Eu quase nunca achava roupas e as chances de encontrá-las numa marca jovem e moderna eram ainda menores, especialmente nessa marca que eu trabalhava.

A marca era muito jovem e moderna, usada por todos os “fashionistas” do mundo inteiro e conhecida como “a meca hipster”. Em SP, a loja de dois andares ficava localizada na Rua Oscar Freire e tinha toda a coleção de peças-chave que a definiam: camisetas básicas em milhares de cores, leggings das mais variadas estampas, meias e cuecas hiper-coloridas, acessórios de todos os tipos, calças jeans skinny. Além de ser uma marca americana, onde as modelagens são muito pequenas!

O que era legal no entanto, é que todos os modelos das campanhas eram meninas e meninos “normais”, as meninas não usavam maquiagem e as fotos não eram tratadas com photoshop. Porém, não tinha nenhum gordo. Não tinha ninguém que se parecia comigo. O XL não me servia. o XXL ficava apertado.

Sem contar que a marca era também conhecida pela hiper-sexualização das suas campanhas publicitárias, tendo vários anúncios banidos por serem muito explícitos. Se tem um coisa que eu me sentia naquelas roupas, definitivamente não era SEXY.

Na minha época, as peças mais procuradas eram as legging estilo anos 80 de cintura-alta. Calças jeans skinny eram febre e vendiam como água. Começava a surgir a moda do crop-top e eu passava os dias vendo as meninas de barriga de fora exibindo suas cinturinhas. Os meninos modernos que eu queria ser entravam e compravam calças skinny de várias cores, cuecas coloridas super sexy. Tudo era feito pra pessoas magras.

E eu, usando uma bermuda cinza e uma camisa listrada. Essas foram as únicas duas peças que me serviram: ma bermuda de alfaiataria cinza e uma camisa de botões de listras verticais. Tive que pegar 2 unidades de cada, iguais, porque eram as únicas coisas que me serviram. Meu uniforme inteiro seriam esses 2 modelos, duplicados. Durante muito tempo eu tive que usar apenas essas quatro peças de roupas pra trabalhar, de segunda a sábado, frio ou calor.

Todos os dias eu ia trabalhar com a mesma roupa, o mesmo look. Eram as mesmas peças, sujas, encardidas. Se chovesse eu não podia nem lavar a noite pra usar no dia seguinte, porque não ia secar. Várias vezes eu usei as 4 durante uma semana inteira pra só lavar no final de semana. Eu não tinha outra opção.

Com o passar do tempo foram chegando algumas peças novas que eventualmente me serviam, e eu lembro de ter que pedir pra gerente me deixar “esconder aquela calça nova que chegou e me serviu” pra poder retirar na próxima allowance. As camisetas XXL me serviam se eu ficasse 2 minutos esticando a malha antes de me vestir.

Lembro também de surgirem algumas “campanhas” em que todos os vendedores eram obrigados a usarem um estilo específico para promover aquela tendência. Na minha época eram as calças jeans “duras”, sem stretch e sem lavagem. Não me serviam, obviamente, e eu fui o único a não participar da campanha. Uma época as gerentes fotografavam os vendedores e mandavam as fotos para os Estados Unidos, para verificarem se todo mundo estava de acordo com os padrões - e eu morria de medo de ser demitido por não ser igual os vendedores-modernos.




Comecei uma dieta e lembro exatamente do momento em que decidi que não dava pra eu trabalhar numa loja de roupas sem poder usar as roupas daquela loja. Eu queria ser moderno também! Eu queria ser como os meninos bonitos das campanhas, magrinhos e altos, de cueca colorida. Eu queria usar o tricot de 5 listras diferentes. Eu me culpava e achava que não devia estar ali. Naquele momento, no entanto, ainda não tinha muito conhecimento sobre emagrecimento e as dietas da moda não eram as melhores. Devo ter emagrecido alguns kgs, mas nunca o suficiente pra que eu ficasse realmente magro. Foi quando comecei a entender melhor a situação.

O fato de eu trabalhar vendendo roupas que nem eu mesmo conseguia usar dizia mais sobre as roupas em si do que sobre mim. Eu não era uma fracassado por não caber naquelas peças. Eu era apenas gordo, e infelizmente não existe um mercado muito grande para nós. Os gordos são privados de peças legais e "roupas-modernas" e isso não é de hoje. Apesar da marca ter um posicionamento moderno, não produzia roupas para gordos, mesmo vindo dos EUA onde o índice de obesidade é absurdo. A moda é elitista e dita a magreza. Não entrar naquelas roupas dizia muito mais sobre o mundo do que sobre mim. E foi quando eu parei de me culpar que eu entendi.

Ter tido essa experiência de trabalhar numa loja de roupas com imagem extremamente forte de um padrão de beleza americano praticamente inatingível por mim foi difícil, não posso negar, mas me ensinou muito sobre mim.

Eu era absolutamente obcecado com os modelos da campanha e meu maior objetivo era ser como eles. E isso me fazia muito mal, porque independente de emagrecimento eu possivelmente jamais serei como aqueles meninos. Hoje, mesmo tendo perdido tanto peso, eu ainda não sou como eles.

Durante meu processo de emagrecimento, eu olhava para todas as roupas desta marca guardadas no meu armário e sonhava com o dia em que eu iria entrar nelas. Mesmo depois de muitos anos, eu ainda olhava praquela calça listrada branca e pensava que eu só teria emagrecido quando entrasse nela.

E de fato, nunca vou esquecer o dia em que casualmente decidi provar aquela calça e percebi que não só ela tinha entrado, mas estava LARGA; eu chorei. Chorei igual criança. Eu me olhava no espelho e via a cintura da calça larga, as pernas soltas, frouxas. Me vendo no espelho eu lembrava de quando ganhei a peça e muito ansioso fui prová-la. Não passou do joelho e eu fiquei triste, muito mal porque não iria conseguir a calça que eu tanto tinha gostado.

Eu guardei as roupas dessa época todas com grande carinho até hoje. As camisas que ficavam agarradas na barriga, hoje são largas e eu amo usá-las assim mesmo. Entrar nessas peças agora é um símbolo de vitória muito importante na minha vida. Vestir essas peças atualmente me faz lembrar daquele menino-gordo que não conseguia respirar com a bermuda apertada e que não tinha outra opção. Mas elas também me ajudam a lembrar de outra coisa muito importante.





Aprendi também que não posso me basear em outras pessoas e não posso me comparar. Se eu tivesse continuado numa dieta com o intuito de ficar magro como os modelos, eu jamais teria conseguido. Se eu pensar nisso agora, eu vou achar que não consegui. Eu não sou como aqueles meninos que eu tanto aspirava, mesmo tendo emagrecido!

Ter me desapegado dessa obsessão por aquelas imagens foi muito importante. Me fez perceber também que a representação masculina no mercado de moda é muito falha e que nunca vão existir homens como eu. Nunca vou ver um menino gordinho desajeitado de cueca numa campanha. Nunca. E eu não posso me basear somente nas capas de revistas e anúncios das grandes marcas.

Eu sonhava com o dia que entraria naquelas roupas e quando eu consegui, me desapeguei. Hoje metade delas já nem me servem mais porque estão largas, e eu vendi a maioria. Eu tinha a ilusão de que o dia que eu finalmente pudesse usá-las, eu seria magro e feliz - como os modelos. Mas não é assim. Apesar de ainda amar e usar várias daquelas peças, hoje eu somente guardo porque gosto delas e não porque elas representam a minha magreza. Elas representam um período da minha vida em que comecei a entender o poder que a nossa imagem pode ter. Cada peça representa o momento em que tive que engolir o choro e encarar o problema como ele era, e não desistir como eu fazia quando criança. Essas roupas me ajudaram a entender o que eu queria expressar através da imagem, além do corpo. Roupa é só roupa, e o objetivo é ajudar a se expressar, e não te aprisionar num padrão de beleza que ela representa.

Ter entrado na calça skinny que os meninos-modernos todos usavam não me faz mais magro, mais bonito ou mais sexy - apenas me ajudou a me expressar e a me colocar no mundo da forma que eu quero: colorido, estiloso e cheio de vontade de viver.

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