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ELOGIO à MAGREZA também é GORDOFOBIA - Meu antes e Depois


Eu sempre fui gordo, desde muito criança. Pior ainda, eu sempre odiei ser gordo. Eu gostava de ir na piscina mas morria de vergonha de ficar de sunga. Saía correndo do vestiário enrolado numa toalha e só tirava quando estava dentro da água. Mesmo assim, ainda tinha que lidar com os gritos dos outros meninos dizendo "gordo-baleia!". Na escola, eu usava blusa de frio preta por cima do uniforme branco o ano inteiro, independente do calor. Por esses e outros motivos, meu maior sonho sempre foi ser magro porque eu queria ser normal e não ter que lidar com o fato de eu ser diferente.

Porém, desde que eu emagreci eu não consigo aproveitar e me sentir realizado. Eu ainda sinto muito o peso desse preconceito e bullying que eu sofri a vida inteira. Mas pior ainda foi o que aconteceu durante o meu emagrecimento.

Quando comecei a perder bastante peso e as mudanças ficaram visíveis, as pessoas mudaram completamente. Quando você emagrece as pessoas te tratam diferente. O mundo de repente se vira pra você como se você fosse um herói, te tratam como se você fosse um grande vencedor. Emagrecer parece a cura do câncer! Eu chegava no trabalho e era ovacionado porque “você ta cada dia mais magro!”. As pessoas pegavam em mim, me apertavam, mediam a minha barriga e batiam palmas dizendo "agora sim!". Eu me sentia um ojbeto de estudo. Parecia que eu não tinha sentimentos e as pessoas tinham esquecido que talvez aquelas palavras pudessem me machucar - e machucavam!

Foram 25 anos ouvindo piadas e que eu tinha apenas "um rosto bonito". No entanto, de repente, o menino gordo exótico de "rosto bonito", virou um menino "lindo!", "gostoso!", "homão da porra!". Você vai de gordo-nojento-preguiçoso que não toma atitude, pra cara-gato-do-instagram que tomou "vergonha na cara"! Me elogiavam todos os dias, me mandavam mensagens; os meninos que me zoavam na piscina são hoje os meninos que me cutucam no Facebook. Isso tudo sempre me fez sentir confuso e com a sensação de que o mundo está muito errado.


A sociedade ainda valoriza demais a magreza. De acordo com as pessoas, a partir de agora eu seria feliz e realizado. Enquanto eu era gordo,  eu era apenas gordo. O elogio à magreza também é gordofobia. É dizer praquele menino que emagreceu que, só agora, única e exclusivamente por isso, ele é alguém. Enfatizar todas as alegrias do meu emagrecimento era reforçar que só por ter emagrecido, eu finalmente teria acesso ao "mundo feliz". Isso tudo só aumentava a minha ansiedade e meu medo de não conseguir emagrecer "tudo que falta", porque agora mais do que antes eu preciso provar pra todo mundo que eu consigo. Eu quero ser feliz, eu quero receber a minha carteirinha de pessoa normal. Ainda bem que eu tava errado.

Errei em achar que emagrecer era a realização de um sonho e que minha vida iria mudar por causa disso. A minha vida mudou muito sim, mas não somente por isso. Me redescobri, pude me enxergar diferente, recuperei minha auto-estima e meu amor pela moda; aprendi a lidar com meu corpo, me reconheci como homem; chorei de alegria quando pela primeira vez comprei uma camiseta tamanho M, mas também porque era uma camiseta linda. Eu também adotei um gato, mudei de apartamento, cortei o cabelo e fiz milhares de outras coisas que não têm a ver com meu corpo. E eu não posso esquecer disso.

Consegui emagrecer, não tenho mais tanta vergonha do meu corpo e uso camisas brancas sem precisar de uma blusa preta por cima. Eu vou sempre lembrar das calças que não subiram, dos gritos de "pega a bola, opa! o diogo!" no treino de basquete, da pressa em entrar no box antes do banho fugindo do espelho e de todas as vezes que eu só queria ser "normal". E isso tudo de certa forma me segura no chão pra saber que eu sou mais do que um "rosto bonito", e que essa "nova beleza" não vai me dar nada.

Eu queria que fosse diferente e que ninguém sofresse preconceito pela sua aparência. Mas por tudo que eu passei, eu sei quem sou e agradeço por isso.

Eu emagreci, mas não sou magro - sou um ex-gordo. E isso nunca vai mudar. Um dia eu saí de casa pra brincar na piscina e voltei chorando porque descobri que eu era o gordo-baleia. Hoje o mesmo menino gordo-baleia me diz que tá tudo bem e que a magreza não é a solução, e muito menos a felicidade.

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